Beast of Reincarnation: Game Freak acerta no combate, mas erra no resto
A nova investida da Game Freak no action combat impressiona nas lutas, mas decepciona no resto. Emma e sua jornada em busca de uma alma tropeçam em um mundo sem vida. Será que vale a pena?

Game Freak fora da zona de conforto
A Game Freak é um nome que dispensa apresentações para qualquer gamer que tenha crescido nos anos 90 e 2000. Responsável por Pokémon, uma das franquias mais lucrativas e amadas do mundo, o estúdio japonês passou décadas praticamente preso às fórmulas que fizeram da série um fenômeno global. Então, quando foi anunciado que a desenvolvedora estaria trabalhando em um action game com temática pós-apocalíptica, a expectativa da comunidade internacional foi imediata. Beast of Reincarnation, lançado em 4 de agosto de 2026 para PC, PS5 e Xbox Series X/S, representa essa ousada incursão da empresa em um território completamente novo. O resultado final é uma experiência dividida: enquanto o combate impressiona de verdade, praticamente tudo ao redor dele soa genérico, sem identidade e, ouso dizer, sem alma.
E essa falta de alma começa justamente pela protagonista. Emma é uma humana sintética que não possui uma alma, mas deseja ter uma. É um ponto de partida interessante, que poderia render uma narrativa profunda sobre existencialismo, propósito e o que nos torna humanos. Na prática, porém, a execução deixa muito a desejar. Emma é rígida, sem carisma e com pouquíssimas camadas de personalidade. O mesmo pode ser dito dos seus companheiros, como o idoso Brad e a jovem Kagura, que acompanham a protagonista em uma jornada por colônias japonesas em um veículo chamado Cleanse Walker. Nem mesmo o lobo Koo, que deveria ser o alívio cômico e emocional, consegue cativar.
Um mundo que não convida à exploração
A ambientação de Beast of Reincarnation é um Japão pós-pós-apocalíptico, um cenário que por si só já carrega um potencial gigantesco. Enquanto a premissa sugere mistérios a serem desvendados, o mundo em que o jogo se passa é surpreendentemente estéril. Os mapas são compostos por corredores largos de concreto, tomados por vinhas, arbustos e vegetação, mas que se repetem continuamente. O jogo empurra o jogador para frente, rumo ao próximo confronto, mas essa pressa parece existir justamente para tentar esconder a falta de variedade e criatividade nos cenários. Para quem ama explorar, a frustração é garantida, já que o jogo oferece pouquíssima liberdade para investigar o que aconteceu com aquele mundo devastado.
A narrativa, que poderia explorar a relação entre homem, máquina e sobrevivência, acaba se tornando apenas um pano de fundo brando. As interações entre os personagens são pouco inspiradas, e as motivações de cada um são apresentadas de forma apressada. O resultado é uma trama que não empolga, não emociona e que deixa o jogador com uma sensação de "e daí?" durante boa parte dos diálogos. É uma pena, pois a premissa tinha tudo para render uma história memorável.
Combate é o grande destaque
Se a narrativa e a exploração desapontam, o combate salva a experiência de Beast of Reincarnation de ser um fiasco completo. O sistema de lutas do jogo é uma grata surpresa, recheado de experimentação e bastante tenso nos momentos mais difíceis. A Game Freak, mesmo chegando atrasada para a festa dos action games, mostra que sabe criar uma mecânica de combate satisfatória. Os confrontos exigem posicionamento, timing e o uso inteligente das habilidades disponíveis, criando uma dinâmica que recompensa o jogador atento. Essa é a parte em que o estúdio japonês prova que consegue ir além dos comandos simples de Pokémon, entregando uma ação visceral e envolvente capaz de prender o jogador por horas.
Claro, nem tudo no combate é perfeito. A câmera em determinadas situações pode atrapalhar, e alguns chefes apresentam padrões de ataque injustos em momentos pontuais. Mas, no geral, é inegável que as lutas conseguem segurar a experiência e são o principal motivo para continuar jogando até o final da campanha. Se Beast of Reincarnation tivesse recebido a mesma atenção e cuidado nos outros pilares que teve no combate, estaríamos falando de um dos lançamentos do ano.
Veredito: quem deve jogar?
Beast of Reincarnation está em uma posição complicada. Ele é um jogo que brilha exatamente onde menos se esperava, mas falha justamente nos aspectos que costumam atrair jogadores interessados em jogos de ação com história profunda. Para os fãs da Game Freak que querem ver uma nova faceta do estúdio, a experiência pode até ser interessante, mas apenas como uma amostra do que a desenvolvedora é capaz de fazer no futuro. Para os jogadores que procuram um action game robusto, com boa narrativa e mundo envolvente, talvez seja melhor esperar por uma sequência ou por um desconto generoso.
Com classificação Teen e disponível para PC, PlayStation 5 e Xbox Series X/S, o jogo tem potencial para atrair um público variado, mas é preciso entrar com as expectativas calibradas. Aos brasileiros, que já estão acostumados a esperar por bons lançamentos e promoções, fica a dica: se você prioriza combate bem feito, pode se surpreender positivamente. Agora, se busca uma experiência completa e memorável, talvez esse não seja o seu caso. De qualquer forma, Beast of Reincarnation marca o início de uma nova era para a Game Freak, e se o estúdio aprender com os erros desta primeira empreitada, o futuro pode ser bem promissor.
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